Crônica: Perfeccionistas

Crônica: Perfeccionistas

J.F. é um sujeito exemplar. Ele chega sempre mais cedo que todos e sai quando as luzes apagam-se na fábrica. Durante sua jornada diária de trabalho, ele exerce a cobiçada função de supervisor sênior de qualidade. Ele não tolera atrasos dos funcionários, saídas antecipadas, atestados médicos, abonos de dia de trabalho, pausas para lanches esporádicos.

Se esses detalhes não fossem suficientes para torná-lo um rígido chefe de setor, ele gaba-se aos quatro cantos de ser um sujeito perfeccionista. E nos corredores da empresa o burburinho é: J.F. é perfeccionista… ele é um profissional exemplar… ele é perfeito no que faz… ele é chato, mas sempre tem razão…

Ao contrário de J.F., José de Arimatéia não é perfeccionista. Ele trabalha em outro setor, chega no horário adequado, mas às vezes se atrasa pelo trânsito ou por ter que levar os filhos na escola. Trabalha até o horário adequado também e, se preciso for, fica até mais tarde, o que não é uma regra.

Ele coordena o setor de produção em série da fábrica. Lida com muitos funcionários, de experiências e velocidades de aprendizados diferentes. Não existe burburinho nos corredores sobre ele.

Se um funcionário faz o seu melhor, e ainda assim não é perfeito, José aceita e parabeniza-o em frente dos demais profissionais e, nas reuniões de coordenação usa como ponto positivo o empenho de cada um.

José aceita que os seres humanos têm seus limites e não são máquinas. Todos erram um dia. E reconhecer um erro é uma das coisas mais bonitas de se ver. Não só para quem reconhece, mas para todos que compartilham o momento. Reconhecer um erro não é só provar que você não é perfeccionista. Mas, provar que você é humano, com seus medos, desejos e falhas.

Ao comparar a produção de cada um dos setores, os índices foram quase os mesmos, diferente dos índices de satisfação das pessoas que trabalham nesses setores. Olhando os resultados desse último índice, J.F. ganhou de José. Venceu, mas não levou. Explicação: nos relatórios das pesquisas, criados pelo mesmo J.F, constavam o nome de cada um dos funcionários e suas notas para essa pesquisa. Entretanto, bem distante dali, nos corredores, a conversa era outra. E de vez em quando pedidos de transferência entre setores eram lidos por J.F., com um orgulho ferido no olhar.

No final do ano, J.F. ganhou de amigo oculto um relógio de mesa, preciso e mecânico como ele mesmo. José de Arimatéia ganhou uma garrafa de vinho. Não era sua marca preferida, mas abriu assim mesmo e compartilhou com os colegas de trabalho. E hoje, se acontece de J.F. faltar um dia de trabalho, todos comemoram. Se José falta, ainda pela manhã, recebe uma ligação do trabalho perguntando se está tudo bem.

Um perfeccionista só existe porque o mundo precisa de exemplos. E esse exemplo é um a não ser seguido.

Roberley Antonio

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