Crônica: Meu Espaço, Seu Espaço

O celular, usado na maioria do tempo como relógio e despertador, acaba a bateria no meio da madrugada. E o sono profundo e tranquilo termina no sufoco de saber que perdeu o horário de acordar. Sai apressada de casa, puxando os filhos pela mochila e praticamente arremessando-os dentro do carro.

Corre de um lado, corre do outro e chega à escola, e enfrenta aquela fila interminável de outros pais, tendo um dia parecido com o seu.

Filhos na escola, a ordem agora é correr para o trabalho. E o trânsito conspira contra você, contra sua empresa e, principalmente, contra seu chefe. Quarenta minutos depois do horário combinado com seu empregador, seu carro e você entram no pátio da empresa. E quase um acidente acontece, pois você não notou (ou acreditou) que alguém, um ser humano, meio improvável de ter um tele encéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor, estacionou na sua vaga. Sua vontade é parar o carro ali mesmo, tirar o alicate de unha e esvaziar todos os pneus do carro “adversário”. Mas, como uma mulher educada, procura outra vaga, estaciona de qualquer jeito e corre para bater o ponto. Por sorte, o indivíduo que ocupou seu espaço estava ali, tomando água tranquilamente, como os antílopes depois de uma noite de chuva. Você respira fundo e grita: ei, você?! Por que estacionou seu carro na minha vaga?!

O que se passa na cabeça do tranquilo sujeito? Passa rapidamente uma pergunta difícil de ser respondida: quando foi que o espaço começou a te pertencer?

Então, nós interagimos com o mundo como se tudo fosse feito de forma exclusiva para nós. O mundo existe porque nós existimos. E, nos dias de hoje, o conceito de “uso capião” evoluiu, até chegar a uma regra quase geral em todo o universo conhecido: se eu uso frequentemente, é meu. Só meu.

A vaga não marcada é de propriedade da nossa azarada personagem, mesmo sem ter sido devidamente oficializado pela empresa, como acontece com diretorias e presidências. E não para por ai: minha mesa, minha cadeira, meu computador, minha mesa e cadeira de café da manhã, minha frase, minha piada, meu amigo, meu chefe…

Passamos tanto tempo pensando no que é nosso que não descobrimos o que realmente existe do outro lado: um mundo que não para de ser compartilhado.

Dividimos textos, fotos, vídeos, intimidade, amor, ódio, sonhos, vida, morte. E até mesmo brigamos por espaço na rede mundial. Mas, nada é só nosso. Para que tenha um motivo de existência, as redes sociais precisam de pessoas que coloquem suas coisas e de pessoas que veem as coisas colocadas por outros. Sem um dos papéis, não existirá finalidade para que tanta gente entre na web a cada segundo.

E então, por sorte ou por destino, nossa personagem tem uma brilhante ideia: começar a alternar os lugares que estaciona seu carro, onde sentará para tomar o café da manhã, a corriqueira conversa de corredor com amigos diferentes, e tudo mais. Sorriu ao pensar que iria infernizar a vida de muita gente que pensava como ela pensou um dia. Mas, não importa. Sente que tudo será mais simples e tranquilo. Será uma coisa a menos para cobrar dos protocolos sociais que todos estão ligados.

E, nessa bela e quente sexta-feira, um último sentimento de ódio passa na cabeça da preocupada funcionária. Ódio do indivíduo, ser humano, racional e espaçoso, que, durante todo o dia esteve em sua ex-vaga. Na pressa, ela atravessa todo o estacionamento e ao chegar ao local, lembra que não deixou seu carro onde costumava deixar. E quem diz que ela lembra onde estacionou dessa vez?

E pior, a chave do carro ficou esquecida em sua gaveta. Mas, por enquanto vamos deixa-la por alguns minutos relaxar enquanto anda pelo pátio inteiro, em busca do carro perdido. A chave esquecida não importa agora. Só quando ela achar o carro. E, para aliviar um pouco o estresse, solta um belo palavrão, com todas as letras a que tem direito.

E se a crendice popular for verdadeira, a orelha desse indivíduo deve estar chamando a atenção de todos, de tão vermelha que está.

Roberley Antonio

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